‘Economia não retoma com 14 milhões de desempregados’, diz Horácio Lafer Piva Empresário vê piora do quadro fiscal, avalia que há apoio restrito do empresariado ao presidente e defende terceira via para eleições de 2022

Acionista e membro do conselho de administração da fabricante de celulose e papel Klabin, Horácio Lafer Piva se diz menos otimista do que o mercado em relação ao desempenho da economia brasileira. Para ele, não há sinais de avanço das reformas, o que impede uma trajetória de crescimento sustentado do PIB.

Ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o empresário defende uma alternativa de centro à polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista ao GLOBO, Piva afirma, ainda, que Bolsonaro não tem apoio massivo do empresariado, mas de “alguns empresários muito bem definidos que contamos nos dedos”.

O mercado tem revisado para cima as projeções de crescimento do PIB. Qual sua perspectiva para a economia?

Não sou tão otimista quanto o mercado. Não acredito que tenhamos reformas de qualidade, acho inevitável que haja um fatiamento do Ministério da Economia, acho que a gestão orçamentária está muito difícil. Vejo a questão fiscal evoluindo rapidamente para pior. Preocupa, no médio prazo, o custo do ponto de vista fiscal devido à pandemia. No curto prazo, há algum otimismo porque a economia se move a partir de uma base muito deprimida. Mas não aposto no crescimento sustentável.

Quais reformas o senhor acha que é possível aprovar?

As reformas não andam por conflitos entre Executivo e Legislativo e dentro do Congresso. Temas como tamanho do Estado, que poderiam trazer investimento, não andam. Com CPI e eleições no ano que vem, não sei se vão andar. Se não houver reformas, a economia tende a entrar em uma nova baixa em pouco tempo. Você não retoma a economia com 14 milhões de desempregados.

Quais as consequências de emendas ao Orçamento feitas sem critérios técnicos, como no escândalo do Tratoraço?

Acho uma pena o que se fez com o Orçamento. Era uma peça que servia como balizador. Desrespeitamos essa questão do ponto de vista técnico, dos números, do processo de aprovação, que foi tão desastrado. Há risco de maior irresponsabilidade com relação às contas públicas avalizadas por um Orçamento que não é de todo verossímil e sustentável.

O presidente Bolsonaro e apoiadores fazem ataques com frequência ao Congresso e ao STF, mas isso parece não importar ao mercado…

Acho que está mudando. Há terremotos políticos aparecendo — às vezes, até dois por dia —, seja por uma frase do presidente, do núcleo duro, dos ministros ou por movimentos do próprio Congresso. Além de tudo, tem uma questão dada pelas próprias eleições que temos pela frente. Tem um esforço de pelo menos parte da sociedade de criar alternativas. E uma alternativa de centro, de polo democrático, ainda é uma discussão de certa elite da sociedade, mas que eu acho que vai crescer.

As pesquisas hoje dão um cenário de polarização entre Lula e Bolsonaro como o mais provável. Como vê isso?

Fanáticos são fanáticos com Lula ou com Bolsonaro, e isso é muito ruim. Eu não acredito muito em pesquisa feita 19 meses antes (da eleição). Na minha opinião, o governo Bolsonaro ainda vai se enfraquecer, e acho que ainda tem espaço para um candidato que não esteja em nenhuma das duas pontas. O Brasil precisa de um governo que tenha mais capacidade de execução, de uma economia que reduza desigualdade.

“As reformas não andam por conflitos entre Executivo e Legislativo e no Congresso. Temas como tamanho do Estado, que poderiam trazer investimento, não andam”

HORÁCIO LAFER PIVA
Sobre a importância de se aprovar as reformas

 

Se a gente vai ficar só entre um candidato da dita esquerda, embora o Lula seja pragmático e não de esquerda, e de um candidato de direita como Bolsonaro, empobrece o discurso. Mas o Lula vem acompanhado de um PT que vai tentar puxá-lo para uma posição mais radical. A intolerância é herança do PT, e com Lula vem esse PT.

Tanto Bolsonaro como Lula vem buscando mostrar que contam com apoio do empresariado.

O empresariado, de uma maneira geral, pode até optar por um deles, mas luta por opções para alargar o seu leque de escolhas. É mais fácil para o presidente atual ter o apoio de alguns, por exemplo, um segmento da agroindústria, dos agricultores que já vinham com ele e alguns empresários muito bem definidos, que você sabe quem são e contamos nos dedos. Não é possível achar uma lista de empresários que estão apoiando Bolsonaro, e acho que o Lula ainda não começou a operar nisso.

Como melhorar a reputação do Brasil na área ambiental em meio a um governo que tem má imagem nessa área?

É o típico assunto em que as pressões de investidores e do exterior devem fazer com que tenhamos avanços independentemente do Bolsonaro. Assistimos muitos maus-tratos ao meio ambiente, mas fundos estrangeiros, as matrizes das empresas multinacionais e a sociedade têm se mobilizado como nunca. Isso fará com que a gente tome mais juízo. A agenda de ESG (sigla em inglês que se refere a práticas ambientais, sociais e de governança ) nas empresas, que define custo de financiamento, vai criar uma grande mudança. Nessa área eu sou mais otimista.

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