Desmatamento preocupa, e entrada do Brasil na OCDE pode demorar até 4 anos, diz economista

Para ex-ministro português, aprovação do país no grupo depende de ‘atitude reformista’

Para o Brasil entrar na OCDE, conhecido como clube dos países ricos, o mais importante é “ter uma atitude reformista”, diz o economista Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e do Emprego de Portugal que atualmente dirige a área de estudo de países da organização.

A entrada na organização é uma das principais bandeiras do ministro da Economia Paulo Guedes. Mesmo apoiando a adesão do país, Pereira alerta para alguns entraves, como o desmatamento.

O português é o mais recente entrevistado da série Papel do Estado, do Um Brasil, uma iniciativa da Fecomércio de São Paulo em parceria com a Columbia Global Centers e com o Center on Global Economic Governance.

“No Brasil, claramente temos a questão do desmatamento, que nos preocupa bastante”, afirma Pereira durante a entrevista. “Nossa principal preocupação nos próximos tempos vai ser como melhorar as nossas políticas econômicas para conseguir fazer um crescimento mais verde.”

Ele diz que grande parte dos planos de recuperação da economia dos Estados Unidos e Europa são incentivos à economia verde. “O Brasil não pode ficar para trás”, afirma.

A destruição do pantanal e da Amazônia para uma “agricultura de baixa produtividade”, segundo o economista, podem estar acabando com “tesouros mundiais” que poderiam ser importantes para atrair mais investimento e turismo.

Apesar das críticas, Pereira acredita que “o lugar do Brasil é na OCDE”. Na sua visão, caso o país seja admitido na organização, será um dos membros mais poderosos do clube.

Esse processo, no entanto, pode demorar até quatro anos, diz. Durante esse período, a entrada do Brasil será debatida em comitês, onde eventuais “sinais preocupantes” do país candidato podem ser um obstáculo.

Recentemente, a OCDE adotou medida inédita em relação ao combate à corrupção no Brasil: criou um grupo permanente de monitoramento do país sobre o assunto. A entidade está preocupada com o que chamou de fim “surpreendente da Lava Jato” e com as restrições de compartilhamento de informações de órgãos financeiros para investigações.

 
Em 2019, o então presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, determinou a suspensão de investigações criminais pelo país que usem dados detalhados de órgãos de controle, como o antigo Coaf, Receita Federal e Banco Central, sem autorização judicial. A decisão beneficiou o senador e filho do presidente Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Além disso, no início de fevereiro, o comitê de política ambiental da OCDE cancelou discussão sobre o upgrade do status do Brasil no órgão.

Pereira sustenta que uma abertura maior do Brasil ao comércio exterior e à economia verde seriam benéficas ao país.

Em relação às reformas, o economista cita as que julgou importantes para o Brasil, como a da Previdência e a trabalhista, mas diz que as barreiras ao empreendedorismo “são altíssimas” e, em relação ao comércio exterior, “o Brasil é praticamente uma ilha”.

 
“Se nós compararmos o Brasil com a Ásia, os países asiáticos nos últimos 20 anos aumentaram as ligações, importações, exportações”, compara. “Se o Brasil se abrir, ele não só vai crescer muito mais, mas vai também aumentar a sua importância no mundo, o que, para mim, será avassalador.”

Pereira convergiu com o que executivos brasileiros e até mesmo o governo federal vêm defendendo nas últimas semanas sobre a crise econômica decorrente da pandemia: a principal saída é a vacinação.

“Nós precisamos ter certeza absoluta que sermos nacionalistas na vacinação é altamente errado e contraprodutivo”, diz, quando citou a possibilidade de novas mutações do vírus serem resistentes às vacinas disponíveis.

Fonte: Folha de S. Paulo

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