Recorde da dívida mostra que governo precisa de política fiscal mais clara

Recorde da dívida mostra que governo precisa de política fiscal mais clara

Apesar de uma pequena melhora em outubro, o resultado das contas públicas, divulgado ontem pelo Banco Central (BC), não é nada animador. A dívida bruta bateu novo recorde, chegando a 90,7% do Produto Interno Bruto (PIB), e o deficit nominal, resultado da soma do rombo fiscal com as despesas com juros, rompeu a barreira de R$ 1 trilhão pela primeira vez na história.

Conforme os dados do BC, o deficit nominal do setor público consolidado (que inclui os governos federal e regionais e as empresas estatais) somou R$ 1,011 trilhão no acumulado em 12 meses até outubro. O deficit primário (receitas menos despesas) ficou em R$ 661,8 bilhões (9,13% do PIB) e a conta de juros somou R$ 349,2 bilhões (4,82%) do PIB.

“Esse resultado nominal inédito é decorrente do aumento do deficit primário que está acontecendo em função das medidas de combate à pandemia”, informou o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha.

O economista lembrou que o deficit primário cresceu quase 20 vezes no ano, somando R$ 633 bilhões de janeiro a outubro, alta de 1.818% sobre os R$ 33 bilhões do mesmo período do ano passado.

Apenas em outubro, porém, houve superavit primário de R$ 3 bilhões, o primeiro saldo positivo no ano após oito meses negativos. Isso ocorreu graças à melhora dos resultados fiscais de estados e municípios, mas não foi suficiente para evitar novo aumento da dívida pública bruta.

O endividamento somou R$ 6,574 trilhões em outubro, o equivalente a 90,7% do PIB, ante 90,5% em setembro. No ano, a dívida bruta cresceu 14,9 pontos percentuais sobre os 75,8% do PIB de dezembro de 2019, aumento nominal de R$ 1,074 trilhão.

O economista Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), disse que o resultado veio em linha com as projeções da entidade, que prevê a dívida chegando a 93,1% do PIB no fim do ano. Ele lembrou que, apesar da leve redução na velocidade de crescimento da dívida entre setembro e outubro, os dados das contas públicas são preocupantes. “O quadro ainda é muito negativo e tem problemas que precisam ser resolvidos no ano que vem”, como o Orçamento de 2021, que não foi aprovado pelo Congresso, e “o teto de gastos que está sob xeque”. “O governo precisa dar uma dimensão melhor para as contas públicas no médio prazo. É preciso uma estratégia urgente para equilibrar essa dívida gigantesca que se apresenta”, alertou.

Pressões
Fabio Klein, economista da Tendências Consultoria, também criticou a falta de clareza do governo sobre os próximos passos da política fiscal. “A ausência de aprovação do Orçamento de 2021 e de sinais claros quanto à extensão do auxílio emergencial, tem gerado pressões nas taxas de juros futuros e no câmbio, que, combinadas ao aumento da inflação, acarretam alta na conta de juros da dívida”, destacou.

Analistas reconhecem que a piora das contas públicas em 2020 é decorrente da pandemia, mas alertam para os riscos de maior descontrole fiscal, especialmente, se o presidente Jair Bolsonaro resolver adotar uma agenda mais populista, diante da queda da popularidade e da derrota nas urnas dos candidatos apoiados por ele nas maiores cidades do país.

“Bolsonaro aprendeu que o auxílio emergencial ajudou na popularidade dele quando o benefício chegou no bolso da população. Não à toa, as conversas sobre manutenção do auxílio ou a criação de um programa para substituir o Bolsa Família ganharam força. Na medida em que o presidente se vê acuado, ele pode responder mal sobre esse ponto de situação sem se preocupar com os riscos fiscais”, alertou o economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria.

Fonte: Correio Braziliense

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *