Risco fiscal pesa mais sobre dólar do que nova onda da pandemia, dizem analistas

Recrudescimento da doença também tende a contribuir para queda da inflação, se governo mantiver compromisso com a política fiscal

Um recrudescimento da pandemia nas principais economias mundiais tende a contribuir para uma queda da inflação no Brasil, caso o governo mantenha o compromisso com a política fiscal de modo a levar a taxa de câmbio a um patamar mais baixo. O descontrole das contas públicas, por outro lado, pode levar a moeda nacional a um patamar acima de R$ 6,00 e aumentar o repasse cambial para os preços.

Nesta quarta-feira (28), o dólar subiu 1,44%, para R$ 5,7650, maior valor desde maio, quando foi ao recorde de R$ 5,90. O turismo está a R$ 5,90. A moeda chegou a R$ 5,7930 na máxima do dia, mas perdeu força com atuação do Banco Central, que vendeu US$ 1,042 bilhão à vista.

Desta vez, pesa o movimento internacional de valorização do dólar frente a praticamente todas as moedas, em decorrência do aumento de casos de coronavírus na Europa e as novas medidas de restrição adotadas por países como Alemanha e França.

O dólar acumula alta de 43,6% no ano frente ao real. Entre os emergentes, é a moeda que tem o pior desempenho. Na comparação de todas as moedas globais, é a quarta que mais se desvaloriza em 2020, atrás do dólar do Suriname, da cuacha de Zâmbia e da rúpia de Seicheles, nesta ordem.

Apesar do movimento desta quarta-feira, analistas avaliam que a moeda brasileira pode continuar abaixo de R$ 6,00 caso haja sinalização do governo de compromisso com o ajuste fiscal.

“A gente está vendo, especificamente nesta semana, decisões de governos europeus de voltar com medidas de distanciamento e a divulgação de alguns indicadores que mostraram piora na atividade econômica por conta da Covid.

Com isso, os mercados optam por investimentos mais seguros e isso acaba reforçando o dólar no cenário internacional”, afirma Victor Beyruti, economista da Guide.

“Nesta semana, o real foi um pouco mais em linha com os pares, mas, no acumulado do ano, a gente está com desempenho pior.” João Leal, economista da Rio Bravo, diz que uma segunda onda da pandemia tende a gerar uma pressão desinflacionária também no mercado doméstico, mesmo que possa haver uma depreciação cambial adicional, que poderia ser compensada por uma atividade econômica mais fraca.

“O impacto econômico é negativo, mas a expectativa é que seja bem menor do que em março e abril. A tendência é que o câmbio deva depreciar um pouco mais, mas não deve chegar ao nível de R$ 6,00”, afirma Leal.

“O fator doméstico é muito mais importante para o comportamento do câmbio hoje. Se o governo sinalizar que não vai obedecer o teto de gastos ou vai criar um programa de renda fora do teto, provavelmente vamos ver o câmbio ultrapassar o nível de R$ 6,00, mas esse não é o nosso cenário base.”

Maurício Oreng, superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Santander Brasil, também afirma que o cenário mais provável hoje é de uma retomada do ajuste fiscal, o que contribuiria para que uma nova onda de contaminações e medidas de distanciamento não levasse a uma disparada do dólar e tivesse efeito desinflacionário para o Brasil.

No cenário considerado pelo Santander, o dólar iria a R$ 5,30 no final deste ano, se houvesse alguma sinalização positiva na área fiscal, e terminaria 2021 em R$ 4,60.

Na hipótese de descontrole fiscal, afirma Oreng, o dólar iria para R$ 6,70 no próximo ano, com os juros subindo a 6% em 2021 e a 9% em 2022.

Roberto Dumas Damas, professor do Insper, afirma que, com a taxa básica de juros (Selic) baixa e o aumento da percepção de risco para o Brasil, o real tende a seguir depreciado. “Dado o cenário, o dólar pode romper R$ 6,00”, afirma.

Segundo o economista, o encurtamento da dívida deve pesar cada vez mais na economia, levando o país a uma dominância fiscal, ou seja, quando a política fiscal dita a política monetária devido a um peso maior do risco fiscal.

“O menos pior seria o BC subir juros. A Selic está fora do lugar. Se na próxima reunião o Copom não subir, será ainda pior”.

Fonte: Folha de São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *